quinta-feira, 27 de outubro de 2011

TOM DIEGO

Naquela madrugada, ficamos um tempo acordados com os miados enfurecidos que vinham do quintal do vizinho. “Ele achou um gato pra brigar.”, disse a Lisa, se referindo ao Tom, nosso gato. “Fazia tempo que ele não saia de casa pra brigar.”, observei. “Apareceu algum gato novo na área.”, concluiu a Lisa.
De manhã, chega o Tom cansado e com as unhas esfareladas, procurando um espaço pra dormir.
Antes dele se acomodar, verifiquei se ele não apresentava nenhum machucado. Não, não tinha se machucado. Mais uma vez ele havia brigado e, pelo jeito, se saiu vitorioso, apesar de eu entender que numa briga não há vitoriosos. Todos perdem.
“Tom... Tom... vamos conversar!”, chamei. “Deixa ele dormir, João! Ele ta cansado.”, me aconselhou a Lisa. “Eu tô cansado. Deixa eu dormir e depois a gente conversa. Já sei que vocês não estão felizes com minhas brigas, mas depois explico.”, disse o Tom, já dando voltas e fazendo ninho no sofazinho laranja que temos na sala. “Ah! Ele sabe que fez besteira, mais uma vez.”, falei, me dirigindo à Lisa.
Todos os animais que vivem em casa têm dois nomes e um sobrenome; já os divulguei em outros artigos; o Tom é o único que tem apenas um nome e sobrenome. Pra quem não se lembra, ele se chama Tom Raviolli, uma homenagem a nosso amigo Tom Ravazolli. Depois dessas brigas, resolvemos dar um segundo nome ao Tom. Agora ele se chama Tom Diego Raviolli.
As pessoas da nossa geração devem estar pensando que Tom Diego é uma homenagem ao Zorro, pseudônimo daquele personagem justiceiro da nossa época, cujo nome era Dom Diego de La Vega, mas não é. O Diego, do Tom, é uma homenagem a um amigo, um dos nossos queridos “filhos”, que adora uma encrencazinha. Obviamente, ele sempre tem razão nessas brigas, como o nosso Tom, mas, vira e mexe, ficamos sabendo de mais uma.
Quando falei pra Lisa que o Tom passaria a se chamar Tom Diego, pelos motivos já expostos, ela disse: “Mas o Rodolpho vai ficar com ciúmes, pois ele sempre está com o Diego nessas encrencas”. É verdade. O Rodolpho sempre está ao lado do Diego nas brigas, mas escolhi Diego, porque, como o Tom, é ele quem ganha as brigas e sempre sai intacto. Em compensação, o Rodolfo sempre se dá mal.
Expliquei tudo isso, inclusive, na presença de Maracatu e Lambada, o casal de sacis, que havia acabado de chegar e estava sentado na tesoura aparente, que sustenta o telhado da nossa sala. “Nossa! O Rodolpho e o Diego são tão legais. Não dá pra imaginar que eles perdem tempo com brigas.”, disse, a sempre sensível, Lambada. Respondi que são duas pessoas maravilhosas, mas brigam. “Num momento em que o ser humano está necessitando de carinho, de compreensão...”, divagou Maracatu. “Pois é! O pior é que são duas pessoas sensíveis.”, disse a Lisa. “Mas são jovens.”, afirmou Lambada, que arrematou: “Mais tarde eles vão aprender a dar às costas para a ofensa; vão aprender a se colocar num nível superior a essas bobagens de machistas antigos. Mas, se são sensíveis, eles têm a chance de entender tudo isso mais rápido”.
“Eu sei o que é isso.”, disse o Tom, agora Tom Diego, acordando. “Nós temos a necessidade de defender nosso território; o compromisso de demarcar nosso espaço; e a vaidade de mostrar pras gatas da nossa área, quem é que manda no nosso quintal. Nada podemos fazer contra nossos instintos.”, concluiu o gato. “Pode parar Tom. Você está colocando Rodolpho, Diego e você no mesmo caldeirão, o que não está correto. Teoricamente, você tem um pouco de irracionalidade ainda e podemos entender essa coisa de não dominar o instinto. Não é o caso deles.”, argumentei. Nessa altura da conversa, as cadelas já estavam na porta da sala ouvindo a conversa e Salsa não resistiu à sua vontade de filosofar. “É mais fácil ter ódio. O ódio não inibe; o amor, sim. As pessoas têm vergonha de amar. É muito difícil você presenciar uma explosão de amor, enquanto que a manifestação de ódio é corriqueira entre os humanos. Precisamos pensar nisso...”, fechou a conversa nossa idosa cadela, que, em seguida, saiu cheirando as flores que nesta época do ano brotam das ervas daninhas e colorem nosso gramado.
Jamais vou contar este nosso papo pros nossos dois queridos, porque eles podem achar que nós só sabemos criticar e talvez não entendam que, por gostarmos tanto deles, acabamos sentindo as mesmas preocupações de pais verdadeiros; daqueles pais que querem criar seus filhos sem preconceitos, ligados às artes, amantes de livros e discos, enfim, daqueles pais que querem contribuir para que seus filhos sejam seres humanos de verdade.
Mas acreditamos que um dia eles, nossos queridos, vão entender que é menos dolorido para todos, tanto física como sentimentalmente, fugir das confusões e deixar os adversários com a sensação da vitória. Pode ser que eles aprendam com isso.    

João Bid

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O BATIZADO DA MARIA CECÍLIA DEU O QUE FALAR EM CASA

Fui ao batizado da minha sobrinha/neta, a Maria Cecília, no domingo, dia 7, e logo que cheguei na igreja vi que Maracatu e Lambada já estavam sentados ao pé da escadaria que leva ao altar. Eles não perdem um evento que tem a ver comigo ou com a Lisa, mas achei estranho o casal de sacis se interessar por um batizado. Não dei bandeira, mas fiz sinal pra eles não aprontarem nenhuma na igreja e eles concordaram, fazendo um gesto que dizia que eles sabiam onde estavam. Ainda bem que ninguém os viu e, se viu, não se assustou, ou não acreditou... Sei lá! Quem os viu e adorou, foi a Maria Cecília. Eles ficavam fazendo graça e ela sorria o tempo todo, o que deixou todos os presentes encantados com ela. A Maria Cecília é uma graça e me deixou muito feliz por não estranhar meus sacis. Até aí, tudo bem!
Após o batizado, eu e Lisa tínhamos um compromisso em São Roque e voltamos pra casa somente no início da noite. Todos estavam na varanda num papo barulhento, porque falavam ao mesmo tempo. O Tom, deitado na espreguiçadeira, a mesma que era da Rumba, mas a Rumba cresceu tanto, que não cabe mais naquele espaço; as cadelas, deitadas no chão; e o casal de sacis, que coordenava a conversa, sentado na mesinha. Desta vez a conversa era sobre Deus. Conversa, aliás, que começou depois que Maracatu e Lambada contaram sobre o batizado da Maria Cecília.
Eu e Lisa, cansados e percebendo a complexidade do tema, passamos no meio da turma e fomos entrando na casa. “Ajudem a gente a entender algumas coisas sobre Deus.”, pediu a Valsa. “Será que nós sabemos mais do que vocês?”, perguntou a Lisa. “É claro que sim. O Maracatu e a Lambada contaram pra gente sobre o batizado da Maria Cecília e, segundo eles, o padre falou o tempo todo sobre Deus. E você deve saber tudo, João, porque em nenhum momento questionou o padre.”, disse o Tom. “Saia dessa!”, me disse a Lisa, indo direto para o banho.
Percebi que não conseguiria escapar da conversa e sentei na soleira da porta. Comecei me confessando um ignorante no tema, além de agnóstico, por isso, seria difícil falar sobre algo que foge das explicações humanas, mas informei que o batizado da Maria Cecília era uma reunião de cristãos católicos e, para estes, existe um único Deus, que é pai de Jesus Cristo e criador deste mundo. “Criou todos nós?”, perguntou a Rumba. “Se é o criador deste mundo, criou todos nós.”, disse ironicamente a Samba. “Então o mundo está sob os olhares de um único Deus?”, perguntou a Salsa. Eu disse que, para os cristãos, sim, mas argumentei que existem outras religiões, cujos fiéis acreditam em Deuses, ou num outro Deus.
A coisa começou a ficar complicada, quando a Valsa resolveu analisar a situação. “Hitler era cristão; São Francisco de Assis era cristão; isso quer dizer que o Deus de Hitler é o mesmo Deus de São Francisco?”, perguntou a cadelinha.  Respondi que, teoricamente, sim. “Mas o Deus do vereador Carlos Apolinário não pode ser o mesmo Deus da irmã Dulce, por exemplo, embora os dois sejam cristãos. O Apolinário acabou de propor a criação do ‘Dia do Orgulho Heterossexual’, para preservar a família e os bons costumes, demonstrando claramente todo seu preconceito, coisa que a irmã Dulce jamais teve. Como é possível os dois acreditarem no mesmo Deus?”, filosofou Lambada. Fiz uma tentativa de falar, mas fui interrompido por Maracatu. “Frei Tito e Médici eram cristãos. Um foi torturado quando o país era comandado pelo outro. Seguiam o mesmo Deus?”, perguntou o saci.
Após essa pergunta, fez-se silêncio e todos refletiram. “Cada um de nós tem seu próprio Deus.”, definiu Lambada, interrompendo o silêncio. “Ou... cada um de nós é Deus.”, concluiu Tom, sorrindo e enchendo o peito para iniciar um discurso. Interferi citando uma poesia de Roberto Godinho, um escritor são-roquense, que fala sobre a ansiedade de um homem no dia em que conheceria Deus e sua surpresa quando lhe mostraram um espelho.
Não chegamos à conclusão alguma, mas avançamos um pouco num tema que deverá estar presente em outras de nossas conversas, que também não serão conclusivas.
Encerramos aquele papo, mas percebi que as cadelas, os sacis e o gato ficaram um pouco frustrados, porque, tarde da noite, da janela do meu quarto, ouvi trechos do debate que eles ainda travavam na porta do quartinho, até que a Valsa, entre um bocejo e outro, questionou Maracatu e Lambada. “Por que vocês não perguntaram pra Maria Cecília? Acho que só ela tem essa resposta.”
O Tom, que estava quase dormindo ao pé da minha cama, despertou. “Sabe que a Valsa tem razão!”, disse o gato, arrematando, um pouco decepcionado: “Pena que nós nunca vamos saber, porque quando a Maria Cecília estiver falando já terá recebido todas as influências do meio e não se lembrará desta e de muitas outras coisas interessantes.” Colocou a pata esquerda sobre os olhos, para evitar a luz da TV, e voltou a dormir.

João Bid

sexta-feira, 22 de julho de 2011

E VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE

A Lisa vive um momento especial em sua vida. A “CiadeEros”, grupo de teatro da cidade de São Roque, formado por adolescentes e dirigido por ela, tem se destacado na região com a peça “Era uma vez”, pois essa montagem ganhou o direito de representar a cidade de São Roque no Mapa Cultural deste ano; foi selecionada para se apresentar no Festival de Teatro Livre, organizado pela Associação Teatral de Sorocaba; e acabou de ser selecionada para participar do Festival de Teatro do Sesi de Sorocaba. Além desse fato, Lisa anda muito orgulhosa com os prêmios que o ator mairinquense Lélis Andrade vem recebendo nos festivais que participa, atuando no grupo de teatro da Faculdade de Artes Cênicas de Salto, pois ela acabou sendo decisiva para que Lélis escolhesse, acertadamente, a profissão de ator. 
Aliás, todos lá de casa estão em festa e muito orgulhosos com as performances da “CiadeEros” e com as conquistas do Lélis. Esses meninos e meninas são os filhos que não tivemos biologicamente e vivem em casa, portanto, as cadelas, os sacis e o Tom também os consideram da família.
Fiz esse preâmbulo pra contar que a CiadeEros trocou todo o figurino da peça por um novinho e belíssimo, desenhado por Marco Lessa e confeccionado pela Chiquita, minha sogra, e o figurino antigo está guardado no quartinho do fundo, lá em casa. Como já disse pra vocês, os sacis contam detalhadamente pras cadelas e pro gato tudo que assistem e de uma forma que eles acabam tendo acesso às imagens e som dos espetáculos. Fizeram isso com o espetáculo “Era uma vez” e a turma ficou muito emocionada com a história de João e Maria Ninguém, alguns até choraram com o fim da história; riram muito com a Fulana, a Beltrana e a Sicrana, bem como, com as duas velhinhas; ficaram com raiva do Tenente; e odiaram o senhor Poder. 
Esta semana, estávamos arrumando a cozinha do jantar, quando o casal de sacis, Maracatu e Lambada, nos informou: “Vocês estão convidados a, em dez minutos, assistirem o espetáculo teatral ‘E viveram felizes para sempre’, encenado pela ‘CiadeAfrodite’, na passarela do quintal.”
Deixamos a cozinha para o outro dia e fomos para o quintal. 
As cadeiras foram colocadas no gramado dos dois lados da passarela, direcionadas para o centro, na circunferência maior do piso. Platéia lotada. Estavam todos os gatos da vizinhança, curupiras, sacis, iaras e boitatás. Dois lugares reservados para nós.
A Lambada dirigiu a peça e Maracatu fez a sonoplastia e a iluminação. Importante ressaltar que os sons vinham de algum lugar, que não identificamos e que Maracatu fez questão de não contar, e a iluminação era natural. Aquela era noite de lua cheia e Maracatu, também de uma forma que não nos explicou, exercia total domínio sobre as nuvens e fazia com que estas passassem em frente à lua conforme a necessidade de mais ou menos luz e, vez ou outra, uma ou outra estrela brilhava com maior ou menor intensidade. A iluminação que a Dani Oncala fez no “Era uma vez” estava belíssima, mas a de Maracatu...
A história da peça também se passava num país fantástico, porém, nada de autoritarismo como no “Era uma vez”. Nesse país existia liberdade; direitos e deveres; não existiam políticos corruptos; as críticas eram debatidas e os elogios não existiam, porque todos tinham consciência de que fazer o certo não era nada mais do que a obrigação dos que estavam no poder; não existiam os preconceitos; enfim; todos eram tratados com igualdade. De repente, entra o Tom com o figurino do João Ninguém: bermuda, uma camisa simples e de chapéu. “Esse gato não tem jeito. Tinha que ser o protagonista.”, sussurrou a Lisa no meu ouvido. No mesmo instante, a luz de uma estrela fica mais intensa do outro lado da passarela, onde aparece, com o figurino de Maria Ninguém, a Valsa. “E a Valsa ia deixar barato?”, perguntei, também sussurrando para a Lisa. E a peça seguiu, até que entra a Rumba, fazendo três papéis: Fulana, Sicrana e Beltrana. Nessa cena, as Três Marias, as estrelas, trabalharam de verdade, porque ficavam acendendo e apagando conforme o texto fluía na boca de Rumba, que pulava de foco em foco para fazer, com competência, os três papéis. Quase morremos de rir com a Rumba, mas ainda sobrou vida para rirmos muito com as duas velhinhas: Samba e Salsa. A Samba oferecia chá e a Salsa falava: “Aceito um bocadinho.” Pra ficar mais real, a Salsa fez uma velhinha com catarata, que não conseguia acompanhar os passos da Samba. Ia sempre para a direção oposta. Percebemos que a peça caminhava para o fim, quando, ao término da cena das mocinhas, interpretadas por Rumba, Samba e Salsa, as nuvens se colocaram em volta da lua e formou-se um foco na entrada do quartinho, de onde saiu Tom, vestido de Smoking, usando gel nos pelos, e a seu lado, Valsa, de véu e grinalda. Era o casamento de João e Maria Ninguém. Logo atrás do casal, vinham Samba, Salsa e Rumba, esta última jogando arroz, e o fundo musical era a música composta por Edson D’aísa para a peça “Era uma vez”. Maracatu adorou a composição e não quis trocá-la. A surpresa ficou por conta de uma revoada de maritacas, que saiu do abacateiro do vizinho em direção da torre de celular, que fica em frente à nossa casa. O cortejo passou pela passarela sob os aplausos de todos. “E assim, viveram felizes para sempre”.
Essa peça vocês não vão poder assistir, porque a CiadeAfrodite já informou que a apresentação foi única, já que a própria arte de encenar é única, além do fato de que a iluminação estaria prejudicada, pois não se sabe quando a lua estará na mesma posição e cheia outra vez; mas a peça “Era uma vez” continua em cartaz e é necessária para todos nós. Assistam.

João Bid

segunda-feira, 13 de junho de 2011

E FINALMENTE A RUMBA FALOU

Numa dessas noites muito frias, apesar de sabermos que as meninas estão muito bem instaladas no quartinho delas, ficamos sensibilizados e convidamos todo mundo pra assistir TV. A Salsa, mesmo tendo perdido a visão, era a mais animada, pois ela curte muito ficar exercitando sua imaginação. 
Não me lembro qual era o programa, mas lembro que tentei mudar de canal quando anunciaram uma entrevista com Jair Bolsonaro e fui impedido, porque todos, afora eu e Lisa, estavam curiosos para conhecer a cara do autor de inúmeras manifestações homofóbicas.
Bastou a primeira resposta daquela coisa, para ouvirmos uma voz infantil, porém, numa linguagem clara, com fim de frase bem definido, sílabas bem articuladas e um timbre muito gostoso. “Esse cara é um babaca”. Era a Rumba, finalmente falando. Antes de comemorar o momento, tive tempo de observar que essa voz, assim que madura, chegará muito próxima da voz de Cris Delano, para mim, a melhor cantora brasileira (procurem ouvir). 
Todos nós ficamos muito felizes e comemoramos. Lambada estava toda orgulhosa por ter sido a responsável pelos ensinamentos transmitidos à Rumba e mais orgulhosa ainda, pela lucidez da primeira manifestação daquela nossa menininha. Pra variar, a Lisa chorou. Valsa quis começar uma conversa com a Rumba, mas foi interrompida pela Salsa, que foi a única a ouvir a segunda resposta do político. “Escroto, fascista e enrustido. Gente desse tipo deveria ser proibida de viver em sociedade.” Voltamos as atenções para a TV e na terceira resposta, que vinha contida de um ódio profundo pelos homossexuais, o Tom apertou a tecla off do controle remoto. “Não precisamos continuar ouvindo esse idiota falar.”, afirmou o gato. 
Samba ainda estava brigando com o Tom, porque achava que deveríamos ouvir toda a entrevista daquele monstro, mas Lambada, pedindo licença, perguntou: “Posso aproveitar este momento pra contar uma história?”. Samba cedeu e todos silenciaram para ouvir a saci.
Lambada iniciou contando que, há muito tempo, num recanto da Floresta Amazônica, nasceu um saci com duas pernas. “Que bacana!”, interferiu a Valsa. “Não foi dessa forma que a comunidade recebeu a notícia.”, rebateu Maracatu, fazendo sinal para que Valsa deixasse a Lambada continuar a história. Lambada continuou, relatando que muitos sacis olhavam para aquele ser com repugnância; outros ficaram penalizados; e alguns poucos, iniciaram um movimento para isolar a saci que dera a luz àquele ser estranho. A mãe demonstrava certo desespero com a situação, pois sentia que, mesmo não externando esse sentimento, todos queriam explicações, mas ela não as tinha e sofria com a possibilidade de ver seu filho sendo vítima de preconceito no futuro.
O sacizinho cresceu um pouco e, nos seus primeiros passos, tropeçava nas pernas e caía, invariavelmente. “Tadinho!”, sussurrou Samba. Lambada continuou contando que os outros sacizinhos riam muito e começavam a isolá-lo de suas brincadeiras. Passados mais alguns anos, o saci, já se equilibrando, percebeu que, com duas pernas, poderia ser muito mais rápido que todos os sacis da comunidade e aí passou a ser vítima da inveja de alguns, já que ele era o mais solicitado para as tarefas mais difíceis. Essa inveja fortaleceu o preconceito de outros, que, veladamente, se juntaram contra aquele saci. “O impressionante”, dizia Lambada, “é que quanto mais o ódio por ele crescia, mais ele amava sua comunidade; maior era sua dedicação à ela.” 
Continuando, contou que os anos foram mostrando para a comunidade que a diferença daquele saci não era apenas na aparência, mas também, na capacidade de amar. Todos diziam que ele não era apenas mais veloz que os outros, mas também amava mais que todos. Ele dizia que não amava mais, nem menos, mas simplesmente de forma diferente. Por fim, depois de ter adquirido o respeito de todos e de ter se tornado um dos líderes, o saci foi embora sem avisar ninguém, deixando a comunidade saudosa, mas feliz por ter convivido muitos anos com aquele ser tão especial. Acontece que o saci resolveu ir embora de sua comunidade quando descobriu que havia nascido com outro defeito. No seu peito batiam dois corações.
“Dizem que hoje ele anda por todas as florestas e cidades deste país espalhando seu amor e que quando sentimos súbitas alegrias sem motivos aparentes, é ele quem está passando em nossa frente, mas, de tão rápido, nem conseguimos vê-lo.”, finalizou Lambada.
Confesso que foi difícil conter as lágrimas e ficamos todos sem voz, com exceção de Rumba, que por estar em fase final dos estudos, acostumou-se a colocar suas dúvidas. “Será que os homossexuais também têm dois corações, por isso, podem amar mais?”, perguntou. “Não! Eles não amam mais, nem menos, apenas de forma diferente.”, respondeu a Salsa. “E aquele deputado não entendeu isso ainda?”, replicou a cadelinha. “Um dia ele vai entender. Um dia todos vão entender”, profetizou Maracatu. 

João Bid

quinta-feira, 26 de maio de 2011

SENSO ESTÉTICO É UMA QUESTÃO CULTURAL

Hoje temos nossa varanda de volta, porém, logo que a Rumba chegou e se apaixonou pela espreguiçadeira, liberamos esse espaço nobre da casa para ela e as outras cadelas. Confesso que foi difícil retomá-la, porque, além da Rumba, a Salsa estava feliz com o cantinho que já havia tomado, mas não dava mais pra ficar ouvindo nossas visitas cobrarem a reintegração de posse daquele espaço. 
Nesse breve espaço de tempo, cansamos de acordar e encontrar as cadelas, os sacis e o gato espalhados pela varanda, batendo longos papos. Participamos de muitos desses papos, mas um deles ficou na minha cabeça. Foi num domingo, dia de céu aberto, com as duas janelinhas da varanda voltadas para leste recebendo o sol da manhã e a brisa passeando de sul para norte no espaço. Maracatu e Lambada enrolados na rede; Samba sentada em frente à mesinha, que fica encostada na parede, mas no centro da varanda; Rumba, obviamente, na espreguiçadeira; Salsa embaixo dela; e o Tom em cima da grade que separa a varanda da frente da casa. Realmente uma manhã deliciosa para um bom papo. Eu e Lisa abrimos a janela que dá para a varanda e nos acomodamos ali, após ouvirmos o Maracatu dizer: “Lembra aquela peça teatral do Millôr Fernandes ‘Um elefante no caos’, que se passava num prédio de apartamentos e seus moradores conviviam com um incêndio que nunca acabava. O bombeiro, na peça, já era amigo de todos e estava sempre tomando café no apartamento da Maria, a protagonista da história.” “Vocês estão falando de teatro? Tô dentro.”, disse a Lisa. 
“Não. Eu estava falando da praça do nosso bairro, que está em reforma faz mais de um ano e não dá pra imaginar quando ficará pronta, pela morosidade da obra, quando o Maracatu fez essa analogia.”, contou Lambada, que completou, “Eu e Maracatu passamos todas as madrugadas ali e perece que está sempre do mesmo jeito.” “Que nem o incêndio no prédio da peça do Millôr. Não acabava nunca.”, falou Maracatu, em meio a risos.
“Vocês riem, mas deveriam chorar. Não é legal viver numa cidade que num dia programa luta livre na festa do padroeiro, no outro, realiza um rodeio sem nenhuma tradição local, nem mesmo um peão Mairinque tem, e, agora, com a reforma de uma praça que nunca termina.”, disse o Tom, demonstrando certa mágoa na voz. “A gente, que nasceu aqui, não fica feliz com isso.”, completou o gato. “Sem falar nos outros absurdos que acontecem aqui.”, disse a Valsa, que é sãorroquense de nascimento. “Se é como o Maracatu e a Lambada contam pra gente, a coisa tá feia.”, falou a Salsa.
Samba, que nessa altura da conversa se mostrava indignada, me questionou: “Sem querer duvidar do Maracatu e da Lambada, me responda. É verdade que a porta de entrada do Teatro Municipal de Mairinque fica atrás de uma roda-gigante?” Expliquei que isso ocorre somente durante a festa de São José, quando, por falta de espaço, montam uma roda-gigante, de fato, na porta do teatro. “Que absurdo!”, interrompeu a cadela, que fez mais uma questão. “E a porta de entrada da escola de arte? É verdade que fica atrás de um carrinho de hot-dog?”. Nesse momento, a Lisa não aguentou e deixou escapar uma risada, mas engoliu-a imediatamente após receber olhares de censura, pois todos estavam penalizados com a tristeza da Samba e do Tom. Abaixei a cabeça e fui obrigado a acenar positivamente, porque realmente a porta de entrada da escola de artes fica atrás de um carrinho de hot-dog. Samba fechou a boca, se virou e saiu da varanda, seguindo direto para o quartinho, muito envergonhada e chateada. Tom pulou da grade para cima do telhado e sumiu. Eu, que sou nascido em Mairinque e adoro a cidade, saí da janela e fui para o computador. Do gramado, onde estava iniciando uma brincadeira com a Rumba, Valsa tentou minimizar a situação constrangedora. “Mas, em compensação, os camelôs não estão mais nas calçadas da praça do nosso bairro!”, vibrou a cadela. “Pois é! Agora eles estão instalados bem na entrada da Estação, a primeira construção em concreto armado do país.”. ironizou Maracatu. “Instalaram os camelôs numas barracas metálicas de um mau gosto ímpar. Hoje, a nossa estação está escondida pelas barracas.”, lembrou Lambada. “Pelo amor de deus! Isso tá parecendo ensaio fotográfico de Sebastião Salgado.”, gritou Salsa, encerrando conversa.
À noite, eu e Lisa avaliávamos que a gente anda pela cidade e acaba se acostumando com a paisagem, não notando detalhes que realmente deveriam chocar, como chocaram nossos sacis, nossas cadelas e o gato. Lisa argumentava que tudo é uma questão cultural e exemplificou com a televisão brasileira, citando a TV do Silvio Santos, que tem uma programação de mau gosto a toda prova, porque o bom gosto não faz parte da cultura de seu proprietário. Lamentamos então, o azar do povo mairinquense, que elegeu políticos que não incluíram em suas culturas o senso estético apurado. O Tom, que estava tomando seu último gole de leite antes de dormir, fechou a conversa fazendo uma maldade. “Bem diferente do Maracatu e da Salsa, que numa conversa de alguns minutos citaram Millôr Fernandes e Sebastião Salgado... É! Os políticos poderiam pelo menos dar ouvido aos animais e aos seres de nosso folclore, já que nunca ouvem seu povo.”

João Bid

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O SUPER-HERÓI CAPITOM

Chegando à tarde em casa, eu e Lisa, conversávamos no carro sobre a certeza de termos de fazer malabarismos para escapar das investidas das cadelas ao abrirmos o portão. A Rumba, que está no auge de sua infância, é a que nos ataca com mais veemência, em busca de carinho, atenção, enfim, aquelas coisas de criança. Temos até uma musiquinha que cantamos em uníssono nesses momentos. É uma canção que está na trilha sonora do filme “Bagda Café” e se encaixa direitinho nesse evento em que se tornou nosso encontro com as cadelas, depois de um dia inteiro sem vê-las.

Nesse dia, porém, uma surpresa: nenhuma delas no portão. Trocamos um olhar e rimos, porque era uma questão de poucos segundos para estarem todas na grade da frente, pulando e latindo, ansiosas por nos atacarem. Abrimos o portão e nada. A partir daí, nossos olhares passaram a ser de preocupação.
Nem fomos para a porta da sala. Pegamos o corredor da direita e, quando íamos começar a correr para o fundo da casa, ouvimos a voz do Tom: “Sentido!”. Já no fim do corredor, pudemos ver as quatro cadelas alinhadas na grama e o Tom, o gato, usando o quepe do tenente da peça “Era uma vez”, que o grupo de teatro da Lisa está encenando, no centro da passarela de concreto, dando os comandos. “Direita!”, gritou o gato. Nesse instante, a Rumba percebeu nossa presença e olhou para a nossa direção. Estávamos à esquerda. O Tom gritou ainda mais alto: “Eu falei direita.” A Valsa também nos viu e tentou sair da formação. Acabou tomando uma dura. “Soldado Valsa, fique no seu lugar. Ainda não dispensei o ‘pelotom’.”, falou firme o gato.
A Salsa, cega que está, era um caso à parte, pois estava sempre desalinhada, mas o Tom, nesse caso, falava com mais calma. “Salsa, vem um pouco mais pra frente. Vire um pouco pra esquerda pra ficar de frente pra mim.”, dizia o gato, com voz mais baixa e paciente.
Em cima do telhado da casa estavam Maracatu e Lambada, os sacis, que não paravam de rir.
“Você sabe o que é isso, né?”, me perguntou a Lisa, quase que sussurrando. Fiz sinal que sim e continuamos olhando. 
Acontece que a Polícia Militar se instalou em frente de casa e, dia desses, a Lisa viu o Tom saindo do Pelotão tranquilamente. Isso nos preocupou um pouco até sabermos que ele é muito bem tratado lá.
“Descansar!”, gritou o gato. “’Pelotom’! Dispensado.”, encerrou o treinamento o comandante. Samba, Valsa e Rumba dispararam em nossa direção, enquanto que o Tom ajudava a Salsa a sair da grama e se orientar para também vir até nós. O Tom se dirigiu ao quartinho para guardar o quepe, de onde deu mais uma ordem: “Meninas! Amanhã, no mesmo horário.” Maracatu e Lambada desceram do telhado e fomos todos pra varanda.
Na varanda, a Rumba, que ainda não fala, começou a latir em diversos volumes e timbres e Lambada, que será sua professora, traduzindo. “Ela quer dizer que achou muito divertida a brincadeira do Tom.”, informou a saci. “Brincadeira! Ele tá levando a sério a formação de um pelotão. Aliás, ele quer que chame de ‘pelotom’, o pelotão do Tom.”, disse a Valsa. “Acho que ele pirou, porque também inventou o ‘Capitom’, capitão Tom. Tá se sentindo um super-herói.”, falou a Samba, rindo. Salsa, mais introspectiva e pensante, opinou pelo lado filosófico e sociológico: “A busca do poder, às vezes, é feita por caminhos que desconhecemos. É preciso identificar o caminho trilhado pelo Tom, para depois combatermos a causa e trazê-lo novamente para a realidade.” Fez-se silêncio, quando entrou na varanda o alvo de nossa conversa. 
“Sente aí, Tom. Vamos bater um papo.”, convidou a Lisa. “Não. Vou dormir um pouco agora, pra ficar de guarda quando as meninas dormirem. Não podemos deixar nossa casa desprotegida.”, respondeu o gato, que entrou e, antes de deitar, assobiou a primeira parte de “Il Silenzio”. 
“Não se preocupem. O Tom está sofrendo a influência das novas amizades com os soldados da Polícia Militar aí da frente. Logo-logo ele volta a ser o nosso Tom.”, disse Maracatu. 
Pra mudar de assunto, perguntei ao casal de sacis o que eles têm visto de arte. Maracatu, meio desanimado, disse que viu algumas coisas interessantes pela região e assistiu a atração de fechamento da Festa de São José, o Padroeiro de Mairinque, só para ver se era verdade o que estavam anunciando, que para ele era um absurdo. Quisemos saber o que era e Lambada contou que eles foram no último dia da festa e estava programada, como atração principal, um festival de Luta Livre. “Acho que vocês não viram direito, porque não é possível terem programado ‘luta livre’ para o último dia de uma festa religiosa.”, falei espantado. “Fico imaginando o padre anunciando: ‘Logo após a missa, teremos um sensacional festival de Luta Livre na praça’”, falou a Valsa,rindo muito. “O pior é que, como choveu, a luta foi transferida para o palco do Teatro Municipal.”, acrescentou Maracatu. “Isso é brincadeira... me recuso a acreditar... no Teatro Municipal?!”, disse a Lisa, quase se afogando com um pedaço de chocolate, mas Lambada foi enfática: “Também não acreditamos, porém, foi o que vimos.” “Vocês contaram isso pro Tom?”, perguntei. “Contaram, com detalhes.”, informou a Samba. “Então, está explicado.”, concluiu a sábia Salsa.
Passados três dias, o Tom passou o dia dormindo e à tarde não incomodou as meninas. Todos perceberam a mudança, mas não quiseram questionar com medo que o gato retomasse o “Pelotom”. À noite, puxei conversa com ele e não resisti. Perguntei o que tinha ocorrido. O Tom me explicou que quando os sacis contaram a história da luta livre na Festa de São José, ele ficou apavorado ao imaginar que na Festa de São João Batista, que seria a próxima, a programação poderia trazer o tal do Vale Tudo e o pior poderia ocorrer na Festa de São Benedito, que é no nosso bairro. “Aí eu pirei e comecei imaginar que poderia acontecer um festival de seres estranhos, desses homofóbicos, ou racistas, ou ainda aqueles que gostam de maltratar animais em rodeios, e pensei em usar os conhecimentos adquiridos com meus amigos da PM pra proteger nossa casa, mas acho que já passou.”, me contou o gato. Perguntei o que aconteceu pra ele mudar de opinião e ele me disse que assim que soube que a Prefeitura foi quem programou a tal Luta Livre, ficou mais tranqüilo, porque sabia que os cristãos ficariam mais atentos e não permitiriam a repetição desse absurdo. 
“Digo adeus ao Capitom, então?”, perguntei sinicamente. “Por ora, sim.”, respondeu ele.


João Bid

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A FAMÍLIA AUMENTOU

“Vocês não querem ficar com este cachorrinho? Ele foi abandonado na rua.”, perguntou a Yasmim, uma menina de nove anos, que mora em frente à nossa casa e que estava acompanhada de suas coleguinhas, também residentes na vizinhança. A Lisa respondeu que não podia, porque já tínhamos três cadelas e um gato, e pediu que elas procurassem alguém que pudesse adotá-lo. Era final de tarde e as meninas saíram pelo bairro com o cachorrinho no colo.

A Lisa virou-se pra mim e disse: “Você sabe pra quem vai sobrar, não sabe?” Eu disse que sim, mas botei fé no poder de convencimento das meninas.
Valsa, ao ver as meninas chegarem com o cachorro, veio para perto do portão e, assim que elas se foram, toda interessada, sugeriu: “Peguem a cadelinha pra gente. Ela é tão bonitinha!”. “Não temos condições, Valsa. Além do trabalho, acho que nem espaço teria. E é cachorrinho, não cadelinha”, respondi, sem tanta segurança assim. “Eu ajudo a cuidar. E é cadelinha, não cachorrinho.”, respondeu ela.
Mais ou menos onze da noite, ouvimos um choro agudo e doído que vinha da rua, o que bastou pra Lisa sair e ver o que estava acontecendo. Em minutos, estava a Lisa de volta, chorando e com o cachorrinho no colo. Combinamos que cuidaríamos dele até conseguirmos alguém bem bacana pra adotá-lo. Ele ficou dentro de casa naquela noite e acho que dá pra todo mundo imaginar como a sala se apresentou no outro dia.
De manhã, abrimos a janela e as cadelas já estavam reunidas na garagem no maior alvoroço, porque haviam percebido a novidade. Samba perguntou se iríamos ficar com a cadelinha, ao que respondi que ficaríamos até conseguir alguém que quisesse. “Posso ficar brincando com ela, então?”, perguntou a Valsa, toda empolgada. “Pode, Valsa, mas, pelo que vi, é um cachorrinho.”, disse a Lisa. 
O primeiro interessado no cachorro desistiu quando descobriu que era, na verdade, uma cadelinha. “Eu falei!”, disse a Valsa, que estava deitada na grama, esperando o desfecho da conversa pra continuar brincando com a, agora, cadelinha. 
Divulgamos na internet e um amigo, vendo nosso sufoco, disse que ficaria com a cadela, mas precisaria de uns quinze dias para se estruturar.
Resumindo, passados dois dias, a cadelinha preta, com patas e peito brancos, já havia conquistado todo mundo em casa e foi batizada com o nome de Rumba. 
Neste momento, ainda estamos nos adaptando, pois a Rumba tem em torno de três a quatro meses e necessita de cuidados especiais. Quem já se adaptou foi a Valsa e ajuda bastante, brincando o dia inteiro com a Rumba.
Maracatu e Lambada, que não se manifestaram durante esse tempo, pois, decerto, já sabiam sobre o desfecho da história, ficarão responsáveis pelo ensino de comunicação com os humanos, mas pedimos para eles não terem pressa, já que é bacana que a Rumba curta bastante sua infância para depois se dedicar aos estudos. Por enquanto, a Valsa vai fazendo a ponte entre nós e a Rumba. 
O Tom ficou meio puto nos primeiros dias, pois era obrigado a dividir o interior da casa com a Rumba, mas agora está animado, mesmo porque, as meninas reivindicaram e a Rumba já está com elas do lado de fora. “Por um instante me senti inseguro, pensando que poderia perder meu reinado nesta casa.”, disse o gato, já com um sorriso no canto da boca. Ainda não retomamos a varanda, mas temos confiança que isso ocorrerá em breve.
Acho que não contei que todos os nossos animais têm dois nomes: Samba de Lourdes, Salsa Filomena, Valsa Maria e Tom Ravioli, este último, em homenagem ao nosso amigo Tom Ravazolli. Então, faltava o segundo nome da Rumba, o que se resolveu durante o Fespima – Festival de Performance Individual, organizado pelo Professor Giovani em Mairinque. Trouxemos o Roberto, ator paulistano, para se apresentar no último dia do festival e, de sábado pra domingo, ele ficou em casa, quando conheceu nossa família inteira e observou que a Rumba tem olhos tristes. A partir daí, a Rumba ganhava um segundo nome. Ficou Rumba Carolina, em homenagem à moça da janela, criada por Chico Buarque. Chique, não?
Enfim, a família aumentou e Rumba, que nem se lembra mais do abandono de que foi vítima, já não guarda tanta dor, a dor de todo este mundo, e não quer saber de ficar na janela, corre por todo o nosso quintal, carregando seu olhar triste, mas em busca de uma felicidade, que já se percebe começa a tomar conta da cadelinha. 

João Bid