Mostrando postagens com marcador Teatro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teatro. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 22 de julho de 2011

E VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE

A Lisa vive um momento especial em sua vida. A “CiadeEros”, grupo de teatro da cidade de São Roque, formado por adolescentes e dirigido por ela, tem se destacado na região com a peça “Era uma vez”, pois essa montagem ganhou o direito de representar a cidade de São Roque no Mapa Cultural deste ano; foi selecionada para se apresentar no Festival de Teatro Livre, organizado pela Associação Teatral de Sorocaba; e acabou de ser selecionada para participar do Festival de Teatro do Sesi de Sorocaba. Além desse fato, Lisa anda muito orgulhosa com os prêmios que o ator mairinquense Lélis Andrade vem recebendo nos festivais que participa, atuando no grupo de teatro da Faculdade de Artes Cênicas de Salto, pois ela acabou sendo decisiva para que Lélis escolhesse, acertadamente, a profissão de ator. 
Aliás, todos lá de casa estão em festa e muito orgulhosos com as performances da “CiadeEros” e com as conquistas do Lélis. Esses meninos e meninas são os filhos que não tivemos biologicamente e vivem em casa, portanto, as cadelas, os sacis e o Tom também os consideram da família.
Fiz esse preâmbulo pra contar que a CiadeEros trocou todo o figurino da peça por um novinho e belíssimo, desenhado por Marco Lessa e confeccionado pela Chiquita, minha sogra, e o figurino antigo está guardado no quartinho do fundo, lá em casa. Como já disse pra vocês, os sacis contam detalhadamente pras cadelas e pro gato tudo que assistem e de uma forma que eles acabam tendo acesso às imagens e som dos espetáculos. Fizeram isso com o espetáculo “Era uma vez” e a turma ficou muito emocionada com a história de João e Maria Ninguém, alguns até choraram com o fim da história; riram muito com a Fulana, a Beltrana e a Sicrana, bem como, com as duas velhinhas; ficaram com raiva do Tenente; e odiaram o senhor Poder. 
Esta semana, estávamos arrumando a cozinha do jantar, quando o casal de sacis, Maracatu e Lambada, nos informou: “Vocês estão convidados a, em dez minutos, assistirem o espetáculo teatral ‘E viveram felizes para sempre’, encenado pela ‘CiadeAfrodite’, na passarela do quintal.”
Deixamos a cozinha para o outro dia e fomos para o quintal. 
As cadeiras foram colocadas no gramado dos dois lados da passarela, direcionadas para o centro, na circunferência maior do piso. Platéia lotada. Estavam todos os gatos da vizinhança, curupiras, sacis, iaras e boitatás. Dois lugares reservados para nós.
A Lambada dirigiu a peça e Maracatu fez a sonoplastia e a iluminação. Importante ressaltar que os sons vinham de algum lugar, que não identificamos e que Maracatu fez questão de não contar, e a iluminação era natural. Aquela era noite de lua cheia e Maracatu, também de uma forma que não nos explicou, exercia total domínio sobre as nuvens e fazia com que estas passassem em frente à lua conforme a necessidade de mais ou menos luz e, vez ou outra, uma ou outra estrela brilhava com maior ou menor intensidade. A iluminação que a Dani Oncala fez no “Era uma vez” estava belíssima, mas a de Maracatu...
A história da peça também se passava num país fantástico, porém, nada de autoritarismo como no “Era uma vez”. Nesse país existia liberdade; direitos e deveres; não existiam políticos corruptos; as críticas eram debatidas e os elogios não existiam, porque todos tinham consciência de que fazer o certo não era nada mais do que a obrigação dos que estavam no poder; não existiam os preconceitos; enfim; todos eram tratados com igualdade. De repente, entra o Tom com o figurino do João Ninguém: bermuda, uma camisa simples e de chapéu. “Esse gato não tem jeito. Tinha que ser o protagonista.”, sussurrou a Lisa no meu ouvido. No mesmo instante, a luz de uma estrela fica mais intensa do outro lado da passarela, onde aparece, com o figurino de Maria Ninguém, a Valsa. “E a Valsa ia deixar barato?”, perguntei, também sussurrando para a Lisa. E a peça seguiu, até que entra a Rumba, fazendo três papéis: Fulana, Sicrana e Beltrana. Nessa cena, as Três Marias, as estrelas, trabalharam de verdade, porque ficavam acendendo e apagando conforme o texto fluía na boca de Rumba, que pulava de foco em foco para fazer, com competência, os três papéis. Quase morremos de rir com a Rumba, mas ainda sobrou vida para rirmos muito com as duas velhinhas: Samba e Salsa. A Samba oferecia chá e a Salsa falava: “Aceito um bocadinho.” Pra ficar mais real, a Salsa fez uma velhinha com catarata, que não conseguia acompanhar os passos da Samba. Ia sempre para a direção oposta. Percebemos que a peça caminhava para o fim, quando, ao término da cena das mocinhas, interpretadas por Rumba, Samba e Salsa, as nuvens se colocaram em volta da lua e formou-se um foco na entrada do quartinho, de onde saiu Tom, vestido de Smoking, usando gel nos pelos, e a seu lado, Valsa, de véu e grinalda. Era o casamento de João e Maria Ninguém. Logo atrás do casal, vinham Samba, Salsa e Rumba, esta última jogando arroz, e o fundo musical era a música composta por Edson D’aísa para a peça “Era uma vez”. Maracatu adorou a composição e não quis trocá-la. A surpresa ficou por conta de uma revoada de maritacas, que saiu do abacateiro do vizinho em direção da torre de celular, que fica em frente à nossa casa. O cortejo passou pela passarela sob os aplausos de todos. “E assim, viveram felizes para sempre”.
Essa peça vocês não vão poder assistir, porque a CiadeAfrodite já informou que a apresentação foi única, já que a própria arte de encenar é única, além do fato de que a iluminação estaria prejudicada, pois não se sabe quando a lua estará na mesma posição e cheia outra vez; mas a peça “Era uma vez” continua em cartaz e é necessária para todos nós. Assistam.

João Bid

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

AS CADELAS E OS SACIS JÁ ESTÃO ENSAIANDO

(publicado em 10/07/06)

O que deveria ser uma grande festa acabou se resumindo em palavra: decepção.

Maracatu e Lambada chagaram ontem da Alemanha; ficaram quinze dias acompanhando a copa e, mesmo com a queda do Brasil, resolveram ficar por lá. É claro que poderiam ter voltado várias vezes pra casa, já que, pra eles, estar lá ou aqui é uma questão de um pulinho; literalmente. Mas, arranjaram um cantinho por lá e ficaram.

Ao chegarem, o assunto “copa do mundo” já estava vencido, não só porque o Brasil perdeu, mas porque Samba e Salsa comemoravam a grande notícia da semana: A Prefeitura de Mairinque fará um convênio com a Sociedade Recreativa Mairinque - SRM e transformará o antigo cinema num Centro Cultural, com teatro.

Maracatu e Lambada não tiveram tempo sequer de mostrar suas habilidades com a língua alemã, porque a Samba, depois de dar os abraços e as boas vindas, foi logo anunciando: “Finalmente Mairinque vai ter um teatro.” Lambada, que é mais sensível às artes que Maracatu, não se conteve e, depois do susto, se pôs a chorar de alegria. Maracatu, ainda meio chateado com a derrota do Brasil, definiu: “Nada como um dia após o outro. Um dia você está triste e no outro recebe uma notícia que só dá alegria”. Quando cheguei na lavanderia, nem o fato de o local estar todo alagado, resultado da enorme chuva que caiu na madrugada, foi motivo para reclamações, porque todos estavam muito felizes com a boa nova.

O silêncio só se estabeleceu, quando falei que já conhecia a notícia. “Desde quando você sabe disso?”, perguntou a Salsa. Respondi que esse projeto faz parte do programa do atual prefeito. “E por que você não falou antes? Eu não precisa passar por mal informada.”, esbravejou a Salsa, me mostrando um artigo que falava sobre a falta de informação das minhas cadelas, Samba e Salsa, em resposta ao artigo “A vida é tão simples...”.

Maracatu interferiu na conversa pra dizer que nossa discussão era inócua, porque, agora, Mairinque terá um Centro Cultural e isso é o que importa, mas Salsa insistiu em saber o porquê de estarmos preocupados em reivindicar a construção de um teatro, sendo que estava prevista a reforma do cinema e Mairinque terá um teatro em breve.

Expliquei que a idéia de reformar o cinema é antiga e muito boa, mas nem podemos imaginar o tempo que isso levaria para se concretizar, por isso, insisto na idéia de se construir um teatro pequeno para atender a demanda existente, que, aliás, cresce a cada dia, enquanto esperamos a reforma do cinema, que pode demorar vários anos. “No máximo dois anos e meio.”, enfatizou Lambada. Perguntei como ela havia chegado a essa conclusão. “Se essa reforma está no programa deste governo, obviamente ela ocorrerá neste governo, que termina daqui a dois anos e meio. Mas o artigo que lemos promete pra este ano”, concluiu a saci. Continuei expondo que o fato de um projeto estar no plano de governo de um político não garante que aquele projeto será executado: vide tantas promessas não cumpridas que testemunhamos todos os dias em todo o país, porém, Lambada, resumia tudo com três frase: “Promessa é promessa. Não há como não cumprir. O prefeito poderia passar por mentiroso e não ficaria bem para alguém que recebeu a confiança das pessoas nas urnas.” Maracatu, que é um saci mais vivido, sugeriu: “Já que você duvida, mantenha um placar na sua coluna: ‘Faltam dois anos e seis meses para terminar a reforma do cinema’ e vai mudando até que a obra seja inaugurada.” Respondi que pensaria no assunto e saí da lavanderia.

À tarde, eu e Lisa percebemos um movimento diferente no quintal e fomos quietinhos até a janela da lavanderia. O que vimos? Os figurinos das peças de teatro da Lisa espalhados e cada um escolhendo uma roupa; minha estante de partitura armada e Salsa regendo uma orquestra imaginária; Samba, com meu microfone, arriscando uns agudos; e Maracatu e Lambada iniciando uma coreografia de dança contemporânea.

Pensei comigo. Se não sair essa reforma do cinema, a decepção vai ser grande aqui em casa.

Obs: Não fiz o placar sugerido por Maracatu e o Centro Educacional e Cultural foi inaugurado três anos e três meses depois daquela data. Foi um sufoco pra conter a ansiedade das cadelas e dos sacis. Agora, vai ser complicado explicar que não vai ser fácil eles apresentarem naquele teatro os 35 espetáculos que montaram durante esse tempo.

João Bid

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A VIDA É TÃO SIMPLES...

(publicado em 28/06/06)

Conversávamos, eu e Lisa, enquanto fazíamos o almoço, sobre a comunidade que montamos na Internet, que pede a construção de um teatro em Mairinque. Falávamos sobre o objetivo da comunidade, que não é o de conseguir o milagre de aparecer um empresário, ou mesmo alguém do poder público, interessado em construir um em nossa cidade, mas sim, o de ampliar a discussão a um ponto em que o teatro se torne uma necessidade clara em cada membro da população mairinquense. “Aí vem você, com suas utopias”, disse a Lisa, me colocando no chão, principalmente quando vislumbrei a possibilidade de o município construir um teatro pequeno em cada escola municipal.

A Lisa acredita que as artes devem invadir todos os espaços existentes na cidade para que todos tenham acesso e possam formar uma opinião quanto ao tema. Concordo, mas pergunto o que fazer com o que já está sendo produzido nas várias áreas das artes em Mairinque. Tenho claro na minha cabeça, que a construção de um espaço adequado é de extrema necessidade para o município. A Lisa ri e me diz que “o problema é exatamente esse: está tudo claro na sua cabeça, só precisa sair dela.” Aí ficamos lamentando a nossa incapacidade de mostrar essa necessidade para as outras pessoas.

Nesse momento ouvimos: “Isso parece conversa de louco.”. Era a Salsa, a cadela mais tímida, que dormia próxima a janela da cozinha, e acordou com a nossa conversa.

Pus a cabeça pra fora e perguntei o porquê daquele comentário e Salsa falou que achava engraçado o fato de, no século em que nos encontramos, ouvir as pessoas questionando a necessidade de um teatro para uma comunidade. Se desculpando, disse que teve a impressão que nós, eu e Lisa, estávamos ficando loucos, já que só somos chamados de humanos, porque se supõe que lidamos com naturalidade com as coisas que estão diretamente ligadas à busca do belo, do fantástico, e isso, só se encontra valorizando-se as artes. “A construção de um teatro não deveria ser uma necessidade, mas uma realidade”, concluiu aquela minha cadela maravilhosa.

Antes de ir para junto da Samba, que naquele momento estava se esgoelando para o caminhão de lixo, ainda nos deu uma dica: “Não sei se vocês sabiam, mas o único caminho é juntar gente que pense do mesmo jeito. E aí sim colocar essa proposta, baseada na união dos interessados. Não acredito que os políticos não cedam a uma classe organizada.”

Há muito tempo tenho vontade de ver a classe artística mairinquense se organizar; já participei de várias tentativas, mas, infelizmente, nunca seguimos em frente. Sei que é a única forma de sermos ouvidos. Por enquanto, vou tentando participar das oportunidades que vão aparecendo e continuo trocando idéias com os sacis e as cadelas que moram em casa.

Penso que posso aprender muito, pois, para eles, a vida é tão simples...

Obs: A reforma do antigo cinema foi realizada e o teatro inaugurado em outubro deste ano. Recentemente a Salsa voltou ao assunto. “Agora, é ter um pouco mais de paciência pra esperar que o espaço seja dotado dos equipamentos necessários e entregue aos artistas locais”, disse Salsa, configurando uma expressão que até agora não sei se era de convicção ou dúvida.

João Bid