quinta-feira, 3 de março de 2011

QUANTA COISA BOA!

“Posso me considerar uma privilegiada, pois a arte tem me proporcionado muitos prazeres. Assisti muita coisa boa nos últimos tempos e sei que foram boas, porque em todas essas oportunidades saí com a sensação de trazê-las pra casa e ir saboreando devagarinho suas mensagens, seus símbolos, suas performances artísticas etc. Sem exceção, ri e chorei muito em todos esses espetáculos, em sua grande maioria, teatrais.”, disse a sempre sensível Lambada, a saci fêmea, que com Maracatu, seu companheiro, não perdeu um espetáculo sequer dos que eu e a Lisa escolhemos para assistir.
Estávamos reunidos no quintal, numa dessas noites quentes, olhando pro céu e falando de arte. Samba ao lado da cadeira da Lisa, Salsa ao lado da minha, Valsa correndo pelo gramado atrás de vagalumes e o casal de sacis em cima do telhado do quartinho, para ficar mais próximo dos galhos do abacateiro que cresce no vizinho. O Tom, como todo gato, um ser extremamente noturno, estava pelos quintais da vizinhança. Vez ou outra, escutávamos uns miados mais enfezados e altos, também característicos do Tom.
Os sacis sempre contam os espetáculos para as cadelas e para o gato com todos os detalhes, porque desenvolveram um método de contar as coisas de forma que os animais acabam enxergando o que está sendo relatado. Maracatu e Lambada pedem para as cadelas e para o Tom fecharem os olhos e entram em suas mentes com as imagens e sons que viram e ouviram. Não me peçam pra dar detalhes desse método, pois nem consigo imaginar o que seria isso. Eu e Lisa pedimos pra que os sacis nos contassem suas aventuras dessa forma, mas nos disseram que só dá certo com animais. 
Mas... conversávamos sobre todos esses espetáculos e brincávamos de Oscar, tentando escolher os melhores, porém, tarefa impossível. A arte nos toca de maneiras diferentes e por diferentes motivos. Resolvemos então, cada um escolher um espetáculo e falar sobre algo que o tocou, pois havia unanimidade no que diz respeito ao prazer sentido por todos, em todos eles.
Maracatu não abriu mão de começar escolhendo a linguagem popular do “Nativos Terra Rasgada”, grupo de teatro de rua, que está apresentando “Pindorama, a saga de um Cristo”. “Achei fantástica a versão bem humorada e cheia de críticas que o grupo apresentou sobre a vinda de Cristo para o Brasil.”, definiu o saci. “Quero entrar nessa brincadeira também!”, gritou Tom, em cima do muro, saindo do meio das folhas do abacateiro. Rapidamente, explicamos nossa proposta e Samba interrompeu pra falar sobre sua escolha. “Para mim, o show ‘Matheus Convida’ foi emocionante, pois, além das canções apresentadas, achei muito bacana a interferência da ‘Cia de Eros’, interpretando uma poesia do Matheus.”, lembrou a cadela. “Na verdade, a ‘Cia de Eros’ deu um banho na peça ‘Era uma vez’, com interpretações surpreendentes e segurando com maestria um texto bastante pesado para os adolescentes, que são.”, proclamou Tom, cá entre nós, deixando suspeitas de que escolheu essa peça porque estava interessado em garantir um espaço na cama da Lisa, já que ela é a diretora do espetáculo; mas, enfim, defendeu bem seu ponto de vista. Lambada se encantou com a peça “Desterro”, interpretada pelo grupo “Coletivo Cê”. “Achei muito bem construído o texto, grandes atores e atrizes, uma direção perfeita. Realmente me emocionei demais. Talvez o fato deles terem ocupado os espaços do casarão da Capela Santo Antônio, tenha contribuído para minha escolha, mas sei que fiquei maravilhada.”, definiu a saci. “Eu fico com a ‘Trama Cultural’. Gosto de dançar aqueles rocks que o Mário Sérgio canta, lembrando Raul, e achei lindo aquele menino dançando enquanto o Rodolfo dizia uma poesia.”, disse a Valsa, que havia desistido dos vagalumes e estava em cima da minha toalha de banho, que ela havia pego na janela do quarto.
Eu e Lisa tínhamos decidido não opinar, pois seria muito difícil para nós, já que gostamos de todos, e não queríamos arriscar sermos injustos com nossos sentimentos. Mas, faltava a Salsa, que ficou o tempo todo voltada para o clarão da lua, sem interferir em nenhum dos depoimentos. “Falta você Salsa!”, pediu o Tom. “Parece que você não está gostando da brincadeira!”, questionou Valsa. “Muito pelo contrário. Eu estava divagando pelos espetáculos enquanto vocês falavam.”, falou a cadela, que escolheu a peça teatral “Do jeito que você gosta.”, de Shakespeare, encenada pela “Companhia Elevador Panorâmico”. “Gostei muito de todos os espetáculos, mas fico com Shakespeare. Duas horas e meia ouvindo o relato da Lambada e me pareceu apenas um minuto de tão belas imagens que foram produzidas, um figurino lindo e interpretações inesquecíveis. Durmo sempre com aquelas imagens.”, concluiu a cadela, que cada vez mais me emociona com sua sensibilidade.
“E o show da Nana?”, perguntou Tom. Ninguém se atreveu a falar de Nana Caymmi. O silêncio se instalou para continuarmos ouvindo aquela voz e lembrando das belíssimas interpretações, que trouxemos pra casa e não merecem comentários. 

João Bid

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A PROFECIA DE TOM JOBIM

E as tragédias de janeiro se repetem. Desta vez, numa intensidade assustadora. A região serrana do Estado do Rio de Janeiro tomou conta do noticiário e todos já imaginavam que, desta vez, o Rio Tietê e a Vila Romano seriam esquecidos pela mídia, poupando os governantes de nosso Estado. Mas São Paulo não deixou barato e, no dia 23, expôs todo esse festival de incompetência e descaso que já conhecemos.
Continuava chovendo e eu e Lisa concluíamos essa conversa, quando Tom, o gato, parou de correr atrás de sua bolinha para lamentar o fato. “Lamentável saber que as mortes poderiam ser evitadas.”, falou o gato, que assistia a bolinha deslizar e parar somente após quase derrubar uma galinha de louça, que mantemos no chão, embaixo do barzinho, “como essa galinha de louça, que por sorte não quebrou.”, concluiu. “Cada vez que você começa a correr atrás de suas bolinhas, nós devemos retirar os objetos quebráveis do chão, não é?”, perguntou a Lisa. “Simples assim. Se a população fosse retirada do local após o sinal de alerta, as mortes seriam evitadas. Além disso, se as autoridades planejassem, fiscalizassem e não permitissem as construções em lugares irregulares, a tragédia seria menor, sem dúvida.”, sentenciou o gato.
Nesse momento chegam Maracatu e Lambada e se acomodam na janela da varanda voltados para o lado de dentro para participar da conversa.
Como as cadelas morrem de medo de chuva, perguntamos ao casal de sacis se as meninas estavam no quartinho. Lambada disse que sim e relatou que a Samba, a mais medrosa, estava no canto, embaixo de uma das prateleiras, e a Valsa, a mais nova, também se encolhera embaixo da namoradeira. “Só a Salsa se mantém calma, reagindo aos sustos que toma com os trovões, mas calma.”, informou Maracatu. Voltamos a falar dos problemas ocasionados pela chuva e a Lisa se lembrou da ironia da natureza ao destruir o sítio de Tom Jobim, compositor de “Águas de Março”. “Meu xará poderia ser chamado de profeta.”, disse nosso Tom, o gato, que cantou, afinadíssimo, uns trechos da música: “É pau, é pedra, é o fim do caminho... É a noite, é a morte... É o tombo da ribanceira... É o vento ventando, é o fim da ladeira... É a chuva chovendo, é conversa ribeira... É o projeto da casa... é a lama, é a lama... É um resto de mato, na luz da manhã... São as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no teu coração...”. Lambada aplaudiu e reforçou: “Vimos tudo isso lá: o tombo da ribanceira, a morte, a chuva chovendo, a lama, a lama e a lama.” “Tom Jobim era um ser humano especial. Entendia e respeitava a natureza; tinha uma relação estreita com as histórias e lendas da floresta; conhecia o folclore nacional. Coisas tão simples, mas que o tornaram imenso e imprescindível.”, discursou Maracatu.
Tentei comentar a manifestação de Maracatu, mas minha voz estava embargada. A Lisa, que ultimamente chora até em leitura de teses de teatro, já estava com os olhos tomados de lágrimas. Tom, nosso gato, percebeu o clima e sugeriu: “Vamos ouvir meu xará, pois agora nada podemos fazer, se não, esperar que toda essa tragédia traga um pouco de consciência para quem se propõe a governar as cidades, os estados e o país.” Saiu correndo, foi até a estante e trouxe, empurrando no chão, como faz com suas bolinhas, o disco “Passarim”. “Coloca a música ‘Brasil Nativo’. O xará faz um passeio pelas coisas do país que ele tanto amava. Acho que essa música pode contribuir com a consciência das pessoas”.
Peguei o disco e coloquei a música que ele pediu. A chuva havia parado e as cadelas chegaram na porta da varanda. Ficamos todos ouvindo e sentindo a grandiosidade deste país. Tom Jobim só não cita minhas cadelas, meu gato e meus sacis, mas cita Guará, Sussuarana e Boitatá: caninos, felinos e seres folclóricos bem brasileiros.
Finalizada a música, Salsa, a cadela que ficou cega, me disse: “Você devia pedir que os leitores do seu blog também ouvissem essa música. A gente enxerga o país inteiro”.
Fica aí a sugestão da Salsa.

João Bid

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

FIM DE ANO EM NOSSA CASA

Neste final de ano não fizemos “amigo secreto” em casa. A Samba e a Valsa estavam animadas e até me perguntaram quando seria o sorteio dos nomes, mas as lembrei que não tivemos um ano muito bacana, em alguns aspectos, e eu não estava nesse pique. Sugeri que elas se juntassem à Salsa, ao Maracatu, à Lambada e ao Tom, e fizessem a brincadeira, porém, elas entenderam que seria melhor apenas nos reunirmos para os comes e bebes e um bom papo.
Eu e Lisa compramos frutas para o casal de sacis; ração diet e uns bifinhos para a Salsa (Vocês se lembram que ela é diabética, né?); ração comum e uns palitinhos de ossos para Samba e Valsa; e leite semidesnatado para o Tom, além da ração que ele mais gosta. Para nós, as coisas normais de final de ano. Montamos a mesa na varanda, quando estava escurecendo.
Ali pelas oito e meia, chegam Salsa, Samba e Valsa. As três usando fone de ouvido, que haviam colocado logo de manhã, já que os fogos, no final do ano, estouram o dia todo e ficam mais intensos à noite. Elas haviam atacado a caixa de maquiagem da “CiadeEros”, o grupo de teatro que a Lisa dirige, e, além dos cílios postiços, fizeram verdadeiras obras de arte em seus corpos. A Samba e a Salsa são brancas com algumas pintas pretas, por isso, pegaram batom vermelho e fizeram desenhos no corpo todo. “Pra te homenagear, pois você é são-paulino, não é?”, perguntou a Salsa, já sabendo a resposta. A Samba tinha uma estola desenhada em volta do pescoço e a Salsa trazia desenhos que lembravam uma pintura pós moderna no corpo. “Eu quis desenhar pra ela, mas ela fez questão de fazer sozinha.”, disse a Samba. Como a Salsa não enxerga mais, a Samba se ofereceu pra fazer a pintura, mas a Salsa, que está cada vez mais independente, quis se pintar sozinha e eu, cá entre nós, gostei demais do resultado, mas não me expressei dessa forma para a Samba não ficar com ciúmes. A Valsa era um capítulo à parte. Ela chegou toda branca de bolinhas pretas. “Meu Deus, o pancake!”, gritou a Lisa. De fato, a Valsa, que é toda cor de mel, para homenagear as irmãs adotivas, acabou com o pote de pancake do grupo da Lisa e se pintou inteira de branco, usando o que restava de rímel, para fazer as bolinhas pretas. Sem outra atitude a tomar, a Lisa riu.
No comecinho da noite, Maracatu e Lambada foram para o que restou de mata em Mairinque. “Vamos nos confraternizar com os seres da mata e voltamos antes da meia noite.”, informou a Lambada. Mais tarde nos contaram que fizeram uma grande festa com os Curupiras, Boitatás, Caiporas, além de outros sacis que habitam nossa região.
O Tom dormia na cadeira de diretor, que está na sala de TV.
Enquanto não estavam todos reunidos, eu e Lisa ficamos conversando com a Samba e com a Salsa, pois a Valsa não tirava os olhos do Papai Noel, que, depois de ligado, fica fazendo rapel. E sobe e desce. E a Valsa pulando pra tentar pegá-lo. Falamos sobre assuntos diversos e acho até que os vizinhos ouviram tudo, porque as cadelas falavam muito alto pelo fato de estarem de fone de ouvido. Era até engraçado. Eu e Lisa falando normal e elas gritando. Pedimos que elas tirassem os fones, mas se recusaram, porque, virava e mexia, estourava um rojão. E esse acabou sendo nosso principal tema: os estouros dos fogos.
“Engraçada essa atração dos humanos pelos fogos.”, disse Samba. Arrisquei um palpite e lembrei que poderia ser pelo fato de termos raízes indígenas. “Não acho graça nenhuma. Isso é coisa de adulto, porque as crianças tem medo. Acho um desrespeito com os animais, com as crianças, com os idosos, com os doentes e com imigrantes que vieram de países que vivem em guerra.”, argumentou a Salsa, que continuou filosofando, “não entendo como os humanos podem se atrair por algo que foi criado para matar.”, concluiu Salsa. “O quê?!”, perguntou a Lisa. “Pois é! As bombas são criadas para um ser humano matar outro ser humano e, mesmo assim, são admiradas por estes.”, respondeu Salsa. “Isso é muita racionalidade. Mesmo porque, o barulho é horroroso, mas as luzes são muito bonitas.”, contemporizou Samba. “Então é simples.”, disse uma voz no escuro da sala. O Tom acabará de acordar. “Como simples?”, perguntou Salsa. “Basta que os humanos queimem apenas fogos de luzes, sem aquela insanidade de explosões.”, concluiu Tom, com a cara enfiada no pote de leite. “Grande idéia Tom!”, festejou a Lisa. Em seguida, me comprometi com todos que faria de tudo para convencer o próximo prefeito de Mairinque a fazer somente queima de fogos de luzes em suas comemorações, bem como, criar campanhas educativas para que a população também entre nessa história.
Exatamente à meia noite, chega o casal de sacis e todos se abraçaram, se beijaram, desejando que as coisas continuem bacanas em nossa casa.
Samba, espontaneamente, começou a cantar a "Ave Maria", de Schubert, e eu, pra mostrar nosso ecumenismo, cantei um ponto de umbanda do tempo, que o Paulo Moraes me ensinou. Maracatu e Lambada fizeram questão de entrar no clima e cantaram uma música do violeiro Paulo Freire. Pra variar, a Valsa também quis se exibir um pouco e começou a cantar "Atirei o pau no gato", conseguindo uma reação imediata do Tom, que saiu correndo atrás dela. Rimos muito e ficamos pela madrugada falando das coisas alegres e tristes que vivemos em 2010. 
    
      João Bid

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

VENCENDO PRECONCEITOS

Fiquei um tempo sem relatar as conversas de casa, porque as conversas rarearam mesmo, já que algumas coisas chatas aconteceram com a gente.
Perdemos o amigo, o irmão, o parceiro musical, enfim, a pessoa maravilhosa, que era o Abelardo, o Abê, que além de cantar no Catavento comigo, é um grande artista plástico. Aliás, o Abê cantava e tocava seus instrumentos com o mesmo cuidado que pintava; assim como, pintava seus quadros com a mesma intensidade com que interpretava uma canção. Já havíamos perdido José Saramago, escritor que inspira nosso cotidiano. E, na sequência, a Salsa, a cadela mais gorda e peluda, a mais tímida e séria, está com diabetes e, por conseqüência da doença, ficou cega.
Por tudo isso, os dias ficaram mais silenciosos nesses últimos meses. Todos respeitando a forma e o tamanho com que a dor se apresentou em cada um de nós.
Um fato novo trouxe um pouco de alegria para a casa e a chance das conversas voltarem a fluir. Não tenho dúvidas que Abê e Saramago também se alegraram com esse fato. Dilma ganhou as eleições e logo no dia seguinte as coisas já estavam diferentes.  
“Cala a boca, Tom!!!”, ouvi, quando estava no corredor interno da casa, me dirigindo à cozinha. A fala vinha do corredor externo. Abri a janela que dá para a garagem e vi a Samba rindo de pernas pro ar e aproveitando para coçar às costas, com movimentos que, se juntando ao riso, criavam uma espécie de performance pós moderna. Realmente bacana.
Perguntei o que estava ocorrendo e a Samba, entre risos, disse-me que a Salsa estava fazendo ameaças ao Tom, o gato, invocando até a vitória da Dilma para isso.
Abro um parêntese para falar um pouco sobre a situação da Salsa. Somente agora ela está mais habituada com o espaço que deve explorar sem a visão, mas, no começo, ela andava batendo a cabeça, indo para o lado errado, o que nos deixava chateados. Com o tempo, a Salsa mesmo foi nos deixando mais à vontade, se permitindo, até, brincar com a situação. “No começo a gente acha que o mundo acabou, mas, depois, a adaptação é natural e você acaba descobrindo coisas tão belas quanto aquelas que você pode enxergar. Aliás, que você pode ver; porque você somente consegue chegar o mais próximo de enxergar de verdade, quando já não pode mais ver.”, filosofou a Salsa, um belo dia. Digo um belo dia, porque, a partir dali, ficamos mais à vontade para conversar com ela, sem achar que a cadela ficou sem algo, mas sim, pensando que ela ganhou algo, que nós não conseguimos imaginar. Algo que pode, até, ser melhor. “Hoje, tenho mais tempo pra ficar comigo,” concluiu a cadela.
Então, voltando ao dia seguinte da vitória da Dilma, a Salsa entrava no corredor para se dirigir ao quartinho do fundo do quintal e o Tom, da janela da cozinha, dirigindo seus passos, mas, obviamente, apontando para direções erradas, criando armadilhas para os passos da Salsa. “Vem pra esquerda!”, orientou o Tom, e a Salsa derrubou a vassoura, que estava encostada na porta da cozinha. “Mais pra direita!”, ajudou o gato, e a pata da cadela mergulhou na vasilha de água; “Segue em frente”, incentivou o Tom, e a cabeça da Salsa parou no botijão de gás.
Foi aí, que a Salsa gritou: “Cala a boca, Tom!!!, Cuide da sua vida! Aliás, cuide bem da sua vida, porque, agora, quem manda aqui são as mulheres. Você vai experimentar o toque feminino, seu gato safado. E cuidado ao passar perto de mim, pois meu faro está mais aguçado e posso te dar um bote muito mais certeiro agora.” “É Dilma lá e nós aqui”, alfinetou a cadelinha Valsa.
“As mulheres vão dar um toque feminino e folclórico no governo, já que a vitória da Dilma se deu no dia em que o Brasil comemora o Dia do Saci.”, lembrou a saci Lambada, com quem, concordou o saci Maracatu. “É! Isso é motivo de muito orgulho para nós.”
Como estávamos no meio do feriado, reservei aquela tarde para cortar a grama do quintal.
Estava eu arrancando tiriricas, com Samba e Valsa à minha volta e Salsa um pouco mais distante, quando vejo que o Tom se aproximava. Embora a convivência entre cães e gato tenha melhorado lá em casa, ainda me preocupo quando eu e a Lisa estamos próximos dos animais. Ainda tenho medo que o ciúme faça com que as cadelas ataquem o Tom. Mas... o Tom se aproximava e estava para passar na frente da Salsa. Lembrei que a Salsa havia prometido um bote certeiro e fiquei preocupado. Agora, o Tom estava com a metade do corpo em frente à Salsa e notei que ela farejava pra determinar a distância. O rabo dele iria encostar no nariz dela e o rabo dela começava a balançar. Fixei os olhos naquela direção, pronto para evitar o pior, quando o rabo do Tom tocou, de fato, o nariz da Salsa. Quis fechar os olhos, mas resisti e não o fiz. Nesse momento, a Salsa respirou fundo, abriu um sorriso, coisa rara naquela cadela, e, não tenho dúvida, se sentiu um degrau acima na sua evolução enquanto ser, quase humano.
Ali, percebi que o governo Dilma Roussef começava a se desenhar. Os preconceitos estão sendo vencidos e os seres terão mais chances de se entenderem melhor.
Arrepiei, porque, concomitantemente ao ocorrido, dois raios de sol se espremeram entre as nuvens carregadas e, por um breve instante, iluminaram o quintal.
O sol se foi em seguida, deixando uma brisa e a certeza de que Abê e Saramago estavam passando por ali e também curtiram aquele momento de grandeza da Salsa. Vencer os preconceitos sempre foi um dos ideais dos dois.   
     
      João Bid

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

UM PROTESTO SEM RODEIOS

“Eu odeio rodeio!!!” Acordei com esse grito. O relógio marcava duas horas da manhã. “Eu odeio rodeio mais que tudo nesse mundo!!!”. Levantei e olhei pela fresta da janela do quarto. “Eu odeio rodeio mais do que o cachorrinho do vizinho que vem fazer xixi no portão da nossa casa!!!.

Pela ordem, estavam gritando: Salsa, Samba e Valsa.

Em casa, o quintal é gramado e para passar da casa para a lavanderia, onde fica também o quartinho das meninas, fizemos uma passarela em forma de “Y”, com duas pernas, que saem dos corredores laterais da casa, se encontrando com uma terceira que leva à lavanderia e formando no centro uma circunferência, onde também se vê um símbolo yin e yang ladrilhado.

E foi um “desfile-protesto” que vi pela fresta da janela na passarela que já descrevi.

As meninas vinham, uma de cada ponto da passarela, se encontravam no meio e saiam para os lados opostos, sempre gritando palavras de ordem contra o rodeio, que iniciara naquela noite em Mairinque. A música que vinha da festa estava no último volume e, no silêncio da madrugada, parecia insuportável, por isso, elas estavam usando fone de ouvido, que pegaram nas minhas bagunças.

“Eu odeio rodeio mais do que político corrupto!!!”, gritou a Samba. “Eu odeio rodeio mais do que o inventor dos fogos de artifícios!!!”, gritou a Salsa. “Eu odeio rodeio mais do que o inventor da Barbie, aquela boneca horrorosa!!!”, gritou a Valsa.

Samba e Salsa, mais velhas, estavam levando a sério o movimento. Mesmo a Samba, que vive sorrindo, estava com a cara fechada. Mas Valsa, a cadelinha, estava mesmo era gostando da farra. Feliz por estar acordada fazendo bagunça àquela hora com a autorização das mais velhas.

Resolvi não intervir, por dois motivos. Primeiro, porque a Lisa, que também não conseguia dormir e estava na sala de televisão assistindo a um filme, com o volume bem alto para não ouvir a música da festa, não tinha percebido, mas se percebesse, ficaria muito brava, pois as meninas, além do fone de ouvido, trajavam roupas dos figurinos das peças teatrais dela, que ficam em baús no quartinho. E depois, porque o movimento não estava incomodando a vizinhança, já que abafado pela música.

Mais ou menos duas e meia a música parou e, alguns minutos depois, chegou o casal de sacis Maracatu e Lambada. “Vocês agiram novamente?”, perguntou a Salsa, com um sorriso sarcástico no canto da boca. “Não! Desta vez não conseguimos desligar o som.”, respondeu Maracatu. “A música parou porque o rodeio estava vazio.”, contou Lambada. “E por que vocês ficaram até o fim?”, perguntou a Valsa. “Porque estava muito divertido.”, respondeu Lambada.

Samba interveio. “O que? Vão me dizer, agora, que vocês gostam de rodeio?”, disse a cadela completamente indignada. “Não, pelo amor dos seres folclóricos!!!”, disse Lambada. “Então, vocês gostam de música sertaneja?”, interrogou Samba. “Calma Samba! Também detestamos música sertaneja. Nos divertimos, porque ficamos derrubando os peões, soltando aquela corda que aperta a virilha dos animais.”, disse, sorrindo, Maracatu. “Eu joguei um mosquito na garganta do locutor, que ele engasgou bem na hora que ia dizer: ‘Seguuuura peão!’”, relatou Lambada, já caindo na gargalhada. Gargalhada que se espalhou entre as cadelas. “Teve um momento que fiquei preocupado. Derrubei o peão, que montava um touro, e quase ele toma uma cifrada. Precisei conversar com o touro.”, revelou Maracatu. “E com cantor, o que aprontaram?”, perguntou Samba. “Com ele nada, mesmo porque ele é apenas uma marionete na mão do empresário. Apenas desafinamos as cordas da guitarra e do banjo e fizemos o baterista cair do banquinho. Mas, com o empresário foi muito divertido.”, disse Lambada. “Conta!”, pediu Valsa, feliz da vida. “Entramos no camarim e esperamos que ele recebesse o cachê do show. Como era muito dinheiro, ele dividiu o pacote e distribuiu nos bolsos da calça. O Maracatu puxava o pacote de um bolso e eu puxava do outro. E choramos de rir ao ver o cara de quatro no chão, recolhendo nota por nota.” “Então, estamos vingadas.”, disse Samba.

Como percebi que o clima estava bem tranquilo e que eles conversavam em volume baixo, fui para a cama, empurrei o Tom um pouco mais para o canto e dormi, mas não sem antes desejar que Maracatu e Lambada tivessem mais sorte no outro dia e conseguissem desligar o som do rodeio. Assim, teríamos um pouco de paz na próxima madrugada.

João Bid

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

JINGLES DE CAMPANHAS ELEITORAIS. FALTA CRIATIVIDADE

Agora não somos mais acordados pelos bucólicos sinos da igreja nas manhãs de domingo. É que moramos na Vila Sorocabana, em Mairinque, onde, aos domingos, acontecem as feiras livres e, com a campanha eleitoral, a concentração de cabos eleitorais nas proximidades da minha casa é enorme, todos buscando votos para seus candidatos junto aos clientes da feira. Com eles, inúmeros carros de som tocando ao mesmo tempo, e em volume exagerado para um domingo de manhã, os jingles de campanha. Verdadeiras pérolas. Eu e Lisa conhecemos todos e esses candidatos conseguiram, além de perder nossos votos, nutrir um sentimento no mínimo esquisito, que não podemos chamar de admiração.

Os jingles já foram mais interessantes em outras épocas, mas hoje, talvez por uma espécie de aculturação visível e audível, viraram retalhos de músicas de mau gosto, que irritam até os fiéis que se dirigem às missas tão contritos e de alma, teoricamente, limpa.

Uma vez, o Pisca, meu amigo, que cozinha maravilhosamente bem, me segredou, depois de receber um elogio meu pela comida que havia feito: “João, a gente mistura um monte de coisa boa e não tem como ficar ruim”. Mal comparando, digo que os atuais jingles são uma mistura de um monte de coisa ruim, que nunca poderiam ficar bons.

Neste último domingo, pra variar, fomos obrigados a levantar cedo. A Lisa levantou antes e, quando sai do quarto, ela estava no final do corredor me fazendo sinal de silêncio e apontando para fora da casa. Fomos nas pontas dos pés até a janela e vimos Maracatu e Lambada, os sacis, sentados na estrutura de ferro que sustenta a lona de cobertura da garagem; Tom, o gato, em cima de um dos pilares do portão; Samba e Salsa, as cadelas mais velhas, deitadas no gramado, com os focinhos esbarrando na grama, o que permitia que as duas colocassem as patas dianteiras nos ouvidos; e Valsa, a cadelinha, dançando no centro da circunferência de ladrilhos, onde se encontra desenhado o símbolo yin e yang, ao som do jingle das candidatas a deputadas federal e estadual, que mais estão investindo nos eleitores de Mairinque (para não dizer “que mais estão enchendo o nosso saco”).

Salsa, com cara de poucos amigos, gritava pra Valsa parar de dançar aquela música horrível. “Não é a dança, é a música que tem que parar.”, gritava Samba, demonstrando extrema irritação. De fato, eu e Lisa concordamos, silenciosamente, que a dança não estava ruim. Aliás, cá entre nós, a Valsa estava uma gracinha. Ela fazia uns passos difíceis em duas patas, alternando dianteiras e traseiras, e conseguia desenhar um movimento com a cabeça e outro com a calda, que nos deixou extáticos.

Vendo que Salsa e Samba poderiam ter um treco, Maracatu e Lambada saíram pulando pelos muros da redondeza até sumirem.

E a música continuava e Valsa cada vez mais empolgada com os novos passos que inventava. E Salsa e Samba cada vez mais irritadas. Não sei dizer se o Tom estava gostando ou não, porque ele começou a pular de pilar em pilar, além de se equilibrar na grade existente entre eles. De repente o som parou e foram parando todos os outros que estavam abafados pelo volume do jingle das candidatas, até que se ouviam apenas os pregões dos feirantes.

Valsa parou se equilibrando em apenas uma das patas dianteiras, com as traseiras para o alto e olhando em direção de Samba e Salsa, que tiraram as patas dos ouvidos e aplaudiram. Tom voltou para um dos pilares e Maracatu e Lambada chegaram alguns minutos depois limpando as mãos. “Acho que eles vão demorar um tempão para descobrirem o defeito no som de seus carros.”, disse Lambada, escondendo um sorriso no olhar.

“Ah! Foram vocês que pararam o som? Tava tão gostoso.”, reclamou Valsa. “Outro dia você tava dançando uma música tão bonita do Milton Nascimento, que eu até me emocionei, mas dançando essa porcaria eu não acho legal. Parece meio vulgar.”, falou, com bastante calma, a Samba. “O pior é que esses jingles são plágios.”, informou Lambada. “Não pode ser Lambada! Plágio é crime e as candidatas não cometeriam um crime em plena campanha. Principalmente elas, que estão querendo ser deputadas.”, argumentou Salsa. “O que é plágio?” perguntou Valsa. “No caso desse jingle, as candidatas pegaram uma música que faz sucesso e colocaram uma letra que fala bem delas. Se elas não tem autorização do compositor da música, estão cometendo o crime de uso indevido de uma propriedade intelectual.”, explicou Tom. “Falou bonito, Tom!”, brincou Maracatu, que completou ironizando, “as futuras deputadas começam dando ótimos exemplos, caso não tenham a autorização”.

“Eu não sabia que era música de campanha eleitoral. Pensei que era a propaganda de novas bonecas, tipo Barbie.”, revelou Valsa, após uns bons goles de água. “Não é muito diferente disso.”, disse Salsa, concluindo com uma convocação. “Maracatu e Lambada, vamos precisar de vocês no próximo domingo.”

João Bid

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

DESMATAMENTO NO HORTO FLORESTAL

“Aqui, a destruição do meio ambiente começou na década de 70, do século passado, quando começamos a abandonar o Horto, a represa Itupararanga, a Estação Ferroviária e tudo que tínhamos de mais bonito e valioso, para cuidarmos da industrialização.”, falei à Lisa, numa de nossas conversas diárias e matutinas. Falávamos sobre a notícia que dava conta de mais uma devastação de eucaliptos na cidade de Mairinque. Desta vez, no Parque Municipal do Horto Florestal Antonio Anselmo. O cúmulo do paradoxo.

Lamentávamos o fato e buscávamos explicações, quando Maracatu, o saci macho, ainda do lado de fora da casa, não agüentou e pediu licença para entrar e interferir na conversa. “É simples! Desconhecimento histórico de quem deu a ordem para cortar os eucaliptos”, disse ele.

A Lisa, que é licenciada em história e gostou da intervenção, perguntou qual era a relação nesse caso.

“Quem deu a ordem deve estar apoiado naquela teoria que coloca o eucalipto como uma vegetação menor e até prejudicial ao solo, porém, se esquece que Mairinque tem origens na ferrovia.”, ensinou o saci. “E o que a ferrovia tem a ver com o corte de eucaliptos?”, perguntou Samba, que estava deitada no tapete, que fica na porta da cozinha. “Com o corte, nada, mas sim com o plantio. A madeira era o combustível usado pelas locomotivas, por isso, a antiga Estrada de Ferro Sorocabana criou hortos florestais em várias cidades por onde a ferrovia passava.”, respondeu Maracatu.

Salsa, que estava sob a janela da cozinha, degustando um pedaço de pão, tinha tudo pra não entrar na conversa, mas acabou não resistindo. “Você bem disse, Maracatu. A madeira era o combustível; não é mais; então, nada impede que seja cortada.”, ironizou a cadela. Maracatu, um pouco irritado, continuou, “Ainda não entrei no caso do corte em si, estou primeiro historiando. O Horto Florestal de Mairinque é um caso especial, porque ali funcionava uma espécie de laboratório, já que foram plantadas várias espécies de eucalipto com o objetivo de se chegar no apropriado para a utilização deste como combustível. Por isso, aliás, é que Mairinque era comparada a Campos do Jordão. O ar daqui era muito bom para tratamento de algumas doenças respiratórias, porque os eucaliptos garantiam essa qualidade.”, concluiu Maracatu.

Tom, o gato, estava dormindo no pufe e, vez ou outra, abria os olhos como que pedindo para a conversa manter um nível de volume aceitável, mas percebia-se que, mesmo sonolento, estava entendendo o rumo da discussão. Quem não estava entendendo, era a Valsa, a cadelinha mais nova. “Tudo bem, essa história é muito bonita, mas o que tem a ver com os cortes dos eucaliptos?”, perguntou ela. “Tudo a ver...”, respondeu Lambada, a saci, que até ali, se mantinha muito atenta, continuando, “alguém que conhece essa história, que sabe da importância dessa árvore na criação deste município, jamais se arriscaria a passar pela vergonha de autorizar essa devastação. Aliás, essa pessoa não deve nem conhecer o Hino Oficial de Mairinque. Se conhecesse, não daria a ordem, pois imaginaria que não foi de graça que os autores do hino colocaram um papel de destaque para os eucaliptos naquela letra.”, ressaltou Lambada.

“Parabéns Maracatu! Parabéns Lambada! Realmente perfeita essa análise.”, sentenciou a Lisa, que completou: “E, mais uma vez, a falta de investimentos na cultura acaba gerando conseqüências lamentáveis e altamente prejudiciais para uma comunidade inteira.”

“E vocês, que estão aqui desde a década de 60 do século passado e vivem falando de investimentos na cultura e nas artes, não fizeram nada?”, perguntou a Salsa. “Salsa! Você já ouviu alguém falando que pregou no deserto?”, perguntou o Tom, com a voz um pouco rouca, por conta de um pigarro, natural em quem acaba de acordar. Salsa, se dirigindo para o quartinho, gritou que sim. “Pois é! Acho que esse é o caso.”, concluiu o gato. “E se não derem um basta nessa devastação, os mairinquenses vão acabar pregando no deserto, literalmente.”, profetizou a Samba, também gritando, pois acompanhava a Salsa.

Terminamos ali nossa conversa, mas ainda deu tempo de ouvir a Valsa, correndo atrás das outras cadelas, quase na porta do quartinho, perguntar pra Samba: “Se Mairinque virar um deserto, você não acha que as pessoas vão querer criar camelos e a gente acaba perdendo nosso espaço?”. Samba não respondeu, mas balançou a cabeça e sorriu.

João Bid